Lactivadores SIM...

... Lactivistas Não!

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

Lactivadores SIM, Lactivistas NÃO!!


 O FOCO: ALEITAMENTO MATERNO



A II Pesquisa de Prevalência em Aleitamento Materno¹ revela que apenas 41% das crianças são amamentadas exclusivamente até o sexto mês de vida e muitos são os fatores que estão envolvidos nesta temática, como por exemplo:
- Condição Social;
- Rede de Apoio;
- Idade Materna;
- Influência de Terceiros;
- Primiparidade;
- Entre Outros ...
A lista é realmente ampla. Os fatores que ameaçam o aleitamento materno são de cunho biopsicossocial e devem ser criteriosamente estudados, e utilizados, como ferramentas de trabalho na construção da sistematização da assistência à família. Assim, é possível prestar um cuidado preventivo, integral e individualizado, baseado nas evidências oferecidas não apenas pelo binômio mãe-bebê, mas também pelo ambiente no qual ele está arraigado. Para isso é preciso, primeiramente, educar: levar informações precisas e fundamentadas na ciência para que as pessoas possam se transformar e transformar o outro.
Quando o assunto é aleitamento materno é preciso agir com cautela, sem distinção, sem julgamentos, sem prejulgamentos, sem manifestos, sem punições verbais, mas com vontade de prover mudanças. Mudanças que só acontecem com o trabalho de uma equipe dinâmica que cresce a cada dia com mais membros capazes de empoderar sem pressionar, lembrando de que qualquer atitude forçada representa uma tensão desnecessária para a criança e sua mãe. Em situação de desmame precoce e parto cirúrgico, há muitas famílias que são vítimas (frase de Dr. José Martins Filho) da desinformação, da falta de apoio, da ausência de acesso a serviços de saúde
E, por este motivo, é necessário ativar a sociedade, ativar a família (e não apenas a gestante), ativar as crianças nas escolas precocemente, inserir mais conteúdo sobre amamentação e as práticas naturais do ser humano nos materiais didáticos, criar oportunidades de vivências lúdicas... Mas de um modo maternal, suave, realmente capaz de educar. Não há espaço para ativismo quando a mudança que se quer fazer depende de fatores que vão muito além da vontade das mulheres que estão, ali, enfrentando as muitas dificuldades. Sim, o ativismo provoca mudança, mas carrega consigo um histórico marcado por ações que julgam, atacam e pune a quem não faz adesão. O ativismo quer impor a sua causa, nem que para isso seja preciso fazer guerra.
O amamentar é nosso, é natural, e só precisamos fazer com que as mulheres sintam-se seguras nesta prática. Há causas para ativismo e causas para ativadores.
PENSANDO UM POUCO SOBRE O ATIVISMO
Conversando com um grande amigo, doutor em ciências da saúde, ele disse o seguinte: “Veja se um ativista pelos direitos humanos consegue permanecer tão radical quando uma filha sofre estupro e o feitor vai para uma cadeia com condições desumanas. Se conseguir, este ser está próximo da iluminação”. Neste sentido, não há como ser radical com a mulher que, por qualquer que seja a razão, não consegue amamentar... Para que julgar? Novamente, não há como ser radical, mas é preciso empoderar essa mamãe para que, mesmo não tendo amamentado como “deveria”, ela possa ativar as pessoas que estão em sua volta e sentir-se livre de sua culpa.
Andrew X faz abordagens interessantes em seu texto Abandone o Ativismo:
·         O ‘ativista’ é um especialista ou um expert em transformação social – ainda que quanto mais forte nos apegamos e somos fiéis a este papel e noção do que nós somos, mais estaremos impedindo a transformação que desejamos. Este ato de controle sobre nossos próprios destinos o qual é o ato da revolução envolverá a criação de novos seres e novas formas de interação e comunidade. ‘Experts’ de qualquer tipo podem apenas obstruir isto;
·         A atividade supostamente revolucionária do ativista é uma rotina cega e estéril – uma constante repetição de umas poucas ações sem potencial para a mudança. Ativistas provavelmente resistiriam à mudança se ela viesse, porque ela destruiria as fáceis certezas de seu papel e o agradável pequeno nicho que eles cavaram para eles mesmos;
·         O papel do ativista cria uma separação entre fins e meios: sacrifício próprio significa criar uma divisão entre a revolução como amor e alegria no futuro mais o dever e a rotina agora. A visão de mundo do ativista é dominada pela culpa e obrigação porque o ativista não está lutando por ele mesmo, mas por uma causa separada: “Todas as causas são igualmente inumanas”7;
·         Como um ativista você tem que negar seus próprios desejos porque sua atividade política é definida de tal modo que estas coisas não contam como ‘políticas’. Coloca-se ‘política’ em uma caixa separada do resto da vida – é como um emprego...  Se faz ‘política’ das 9 às 5 e então se vai para casa e se faz alguma outra coisa. Porque ela se encontra em uma caixa separada, a ‘política’ existe desobstruída de quaisquer considerações práticas de efetividade do mundo real. O ativista se sente obrigado a manter em funcionamento a mesma velha rotina sem pensar, incapaz de parar ou reconsiderar, o ponto principal é que o ativista é mantido ocupado e alivia sua culpa batendo sua cabeça em um muro se necessário.

O ativismo segue com certo "estigma" de revolução, de "forçar" a qualquer custo e, muitas vezes - principalmente em aleitamento materno, emprega certa "crueldade" com algumas mães. Os limites, por vezes, são cegos.
Pasquino (1992) ressalta que estas poderiam ser divididas em duas grandes correntes. De um lado, estariam as descrições que veem uma manifestação de irracionalidade nas motivações das erupções das massas. Tais abordagens associam os comportamentos coletivos de massa ao questionamento ao risco à ordem social existente.
Para Érico Gonçalves de Assis:  a definição de ativista não foi ainda devidamente formulada pela academia. (...) Deve haver um sentido de identidade compartilhada, que pode ser entendido nesta etapa como pessoas reconhecendo, umas nas outras a raiva, o medo, a esperança ou outras emoções que sintam quanto a uma transgressão.” (JORDAN, Tim. Activism!. London: Reaktion Books, 2002.11-12, citado por Assis, p.13).
Assis afirma que o uso do termo representa uma tentativa de se afastar das fortes cargas associadas aos termos “revolucionário” e “radical”, que remeteriam ao uso de armas para tomar o poder ou aos desvios dos padrões de conduta das instituições políticas, e ao mesmo tempo distanciar da carga fraca associada ao termo “militante”, aquele que defenderia causas, mas não protagonizaria muitas manifestações ativas. Ele propõe ainda um cruzamento com a noção de ação direta: “qualquer ação positiva (fazer algo) que tenha implicações concretas, e geralmente imediatas, sobre seus alvos” (2006 p. 14).
Por fim, o autor propõe uma definição comparativa, sintética, entre os termos designadores dos agentes políticos contemporâneos: “é um “radical” envolvido em ações políticas diretas e indiretas sempre fora do âmbito institucional. É “mais” que um militante – participa de um grupo, segue seus ideais, mas também vai às ruas e cria situações de confronto com seus alvos – e “menos” que um revolucionário – suas ações não buscam remodelar o sistema de poder vigente de forma impositiva” (2006 p.14)

Quando se pesquisa pelo nome ativismo na internet, logo surgem as notícias como:
O artista plástico e militante político chinês Ai Weiwei voltou a usar o Twitter após um silêncio de mais de quatro meses. Ai tornou-se um dos ativistas mais famosos do mundo ao usar sua conta de Twitter para atacar o regime chinês.”

Governo federal pede mais segurança para ativista ameaçada no Pará

Ex-ativista Cesare Battisti deixa prisão em Brasília

Ativista do movimento de moradia, Gegê é absolvido após nove anos

O NOVO CONCEITO: LACTIVADORES
O neologismo “lactivador” propõe iniciar uma nova história, sem estigma, sem histórico político, sem marcas negativas, envolvido por palavras-chaves positivas em uma nova ideologia para o aleitamento materno. O lactivador:
- Preocupa-se em aprender, em estudar e ser multiplicador de conhecimentos;
- Preocupa-se em educar, elucidar e não a impor;
- Respeita profundamente as limitações individuais de cada ser;
- Não pratica o radicalismo - entendendo que esta prática pode ser maléfica ao bem estar da díade mãe-bebê;
- Entende que, para ativar, é preciso conhecer quem se quer ativar em toda sua dimensão e respeitando seus limites;
- Ele ajuda e não Julga;
- Ele não faz guerra – faz discursos empoderadores;
- Ele não faz passeatas reivindicativas – faz encontros para que mais e mais pessoas se juntem à causa;
- Ele empodera as mães e o seu entorno para que elas por si próprias, promovam as transformações necessárias em nossa cultura de aleitamento tão estigmatizada;
-Ele em como objetivo o bem estar social como um todo e a promoção de uma sociedade mais sadia, equilibrada e justa;
- Ele pensa em lactivar e não ativar, em  acordo com a democracia, respeitando as leis e normas e fortalecendo alianças ao invés de oposições;
- Ele acredita que mães empoderada são capazes de transformar o conceito da importância do aleitamento de tal forma, que a sociedade e o estado então passam a considerar os seus esforços e ideais sem questionamentos, mas com a plena convicção de promoção da ordem social;
- Lactivadores é um tema libertário, em oposição à visão que domestica e engessa. Seu objetivo é empoderar com vistas ás transformações tão necessárias e urgentes que a nossa sociedade tanto anseia, os seus personagens principais: mãe e bebê, que merecem ser protegidos, amparados e cuidados por todos.
Um grande abraço,


Grasielly Mariano - Enfermeira, pesquisadora da EEUSP e consultora em amamentação e administradora da AMS Brasil


Simone de Carvalho - Pedagoga, mestranda em psicologia pela PUC, fundadora e administradora da AMS Brasil

5 comentários:

  1. Oie, Grazi, oie Si!!
    Esse texto traz uma linda reflexão sobre o que queremos mesmo ao "abraçar a causa" da amamentação!! Se um dia, cheguei ao grupo AMS com um pé ou o peito lactivista, foi convivendo com vocês e com o grupo que vi que não era bem esse o caminho que queria seguir.
    Ser lactivadora é uma aprendizagem, e não um simplesmente uma mudança de postura... É preciso refletir e acolher!
    É preciso ouvir pra saber a hora de falar e isso não é fácil.
    É preciso conquistar e compartilhar, mas acima de tudo, respeitar as mamães e seus bebês!!
    Beijocas,
    Aretusa, mamãe da Doce Sophia

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  2. Muito me emocionei com o seu relato minha querida amiga. Sei que tem acompanhado o ideal da AMS desde o seu começo praticamente... E sei que é uma lactivadora de coração! e que venham mais bebês por ai, e com certeza, ainda ouviremos lindas histórias da sua amamentação! Um beijo carinhoso,

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  3. Sou ativista de várias causas e para cada uma delas existe uma conduta. O trabalho perante os governos merece que saiamos às ruas e tenhamos uma conduta mais formal. Já o ativismo entre as mulheres que amamentam, por ter tantas emoções e situações envolvidas, merece uma conduta de mais aconchego. Não à toa que dentro dos movimentos existem as "amigas" do peito, pois são mulheres que se identificam, muito além do ato de amamentar, mas da compreensão do modo de vida de cada uma. Seu texto é bastante esclarecedor com olhar mais amplo e agregador.

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  4. GOSTEI DIFERTENTE.
    Parabéns pela postagem..
    Estamos ai juntos nesta coletiva..
    AMAMENTAÇÃO É UM ATO DE AOUTRO COM OUTRO. PRINCIPALMENTE COM UM SER QUE ACABA DE CHEGAR. INTERAÇÃO DE AMIGOS JUNTO NESTA CAMPANHA.
    http://sandrarandrade7.blogspot.com.br/2012/08/coletiva-amamentacao.html
    VAMOS TROCAR IDEIAS.
    VOU TE ESPERAR.
    CARINHOSAMENTE,
    SANDRA

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  5. Porque não li esse texto antes...
    quando era mae de 1 era lactivista... hoje mae de 3 aprendi muito vivenciando diversas histórias de vidas de pessoas conhecidas e na minha também. Aprendi que cada bebe é unico e cada mae também.
    E se nao aprender a ser lactivadora em vez de ajudar vou afastar as mães. obrigada por esclarecer!

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